Eu atualizei minha teoria sobre isso, e agora acredito que ao invés de musas, são entidades (masculinas e femininas). Existem as entidades superiores – da pintura, literatura, escultura, dança etc. E suas filhas, que regem as criações específicas. Por exemplo da pintura: nanquim, grafite, lápis de cor, aquarela… A questão do ciúmes entre elas existe, mas também o que pega é o quanto podemos nos dedicar a cada uma delas. Porque não é só a concentração numa determinada técnica, mas também o agrado à entidade. Temos que alimentar semanalmente seu altar com desenhos, aquarelas, artes bem resolvidas. E elas são exigentes!! Heheh. O que acaba inviabilizando de agradar mais de uma entidade, de vez em quando. Infelizmente.
Cara, muito bom ler teus relatos bem descritivos sobre os desenhos. Percebi que o cronista estava meio longe do corpo, mas com as orelhas atentas. Enquanto o Raro sketcher agia, ele ouvia os diálogos ao redor. “- Dez reais, dez reais, é o chip da Tim já com carga! “
Adorei o resultado desta sua imersão no cotidiano de lá. Uma hora eu e Raquel reparamos que você estava quase invisível, em meio aos jogadores de carteado da praça. “Sketcher gonzo” – apelidou a Raka. O resultado deste mergulho está lindamente no desenho, perfeito na captura das ações, vestimentas e expressões. Engraçado que era como se não tivéssemos realmente ali. Eles – tão vidrados em suas cartas, não repararam nos “fantasmas” em volta. Gosto muito desta nossa criação; visão das coxias. Estávamos ao mesmo tempo dentro da caixa central, porém fora da cena principal. E você, com seu dom magistral de sketcher gonzo (e ator nato) se infiltrou no roteiro da cidade.
A insegurança sobre as técnicas, na sua crônica, me agrada muito. Para mim, os acertos nascem destas dúvidas tortas. Aquela velha história da esteira de desenhos bons e ruins, né. Heheh
Uma vez li um relato do escritor Herman Melville, de que seu livro Moby Dick era para ele apenas um estudo de um estudo de um estudo. E que ele estava preparando para escrever seu grande livro. (E que curioso – Moby Dick é hoje um dos grandes livros da literatura mundial). Penso que a vida de quem cria alguma coisa é assim. Estamos sempre à espera de “algo que virá”. Mas a tentativa de escrever um livro, é escrever um livro. A tentativa de fazer um sketch, é fazer um sketch. E assim vão surgindo pérolas, no caminho, sem nos darmos conta. Como estes teus dois desenhos do primeiro post-Joinville. Fantásticos.
A aquarela, para mim, é como uma baleia atroz. Às vezes ela chega mais perto, às vezes fica lá no fundo junto com os dos desenhos esquecidos. E aí nós é que temos mergulhar até ela. Esta Moby Dick não pode ser caçada completamente, porque ela é livre. Então o que fazemos é tentar registrá-la, do jeito que dá, suscetíveis a todo tipo de impressões no barco – vento, ondas, fome, enjoo, prazeres, vislumbres de paisagens. Mas o pior mesmo é quando ela vêm e destrói tudo – arrasa, destruindo desenhos, fazendo uma zona com os pincéis. Heheheh Você sabe muito bem como é isso.
Mas a gente sempre se reconstrói e continua. O barco (com remendos) aporta em outros portos – Joinville, Itaiópolis, Salvador. Depois retorna à Curitiba, etc. E a gente continua a saga de desenhar, desenhar. Sempre tentando agradar as entidades, sendo fiel à lembrança dessa baleia abissal (da qual só temos vislumbres), dando uma de sketcher gonzo de vez em quando, nas coxias do roteiro terrestre, no ofício do fazer – sketch, sketch, sketch.
Estudos de estudos de estudos de uma vida que é também um estudo de outros eternos estudos. Heheh
