Para que serve um diário gráfico? Parte 2


Segunda parte de minha
tentativa de responder a provocação do do Eduardo Salavisa (especialista e
autor de vários livros sobre o tema) sobre as 
funções de um diário gráfico.

O texto a seguir é uma
tentativa pública e informal de explicar algo que ainda estou tentando entender
e teria, portanto, apenas uma função exploratória quase especulativa.  As tradicionais categorias da função da
linguagem como a poética, documental, expressiva já foram discutidas na Parte1, agora ilustramos as que restam: metalinguística e apelativa.

Serve para comentar
visualmente os desenhos em si

Uma composição formada
por elementos gráficos que explicam-comentam-expandem-complementam-dialogam a
obra em em si constitui um desenho “metalínguistico”, pois a
“metalinguagem” pode ser definida como o uso da linguagem para
descrever aspectos da própria linguagem que está sendo utilizada. A linguagem
metalinguística faz enunciados sobre a própria linguagem, ou seja, qualquer
livro que ensina a desenhar usando desenhos para explicar como fazê-lo é um
livro metalíngustico.
No caso do diário
gráfico esta abordagem serve para responder as seguintes possíveis perguntas:
  • Que recurso gráfico eu
    uso para “chamar” a atenção desta parte do desenho?
  • Qual detalhe do
    desenho eu desejo ampliar de modo a “explica-lo” melhor?
  • Vou encaixar um texto
    “dentro” deste desenho para explicar algum detalhe?
  • Será que se eu usar
    uma foto ela “dialogará” com o desenho?

Página onde o desenho
representa o próprio desenhista desenhando. 

O desenho registra o próprio ato de
desenhar, ou seja, é metalínguistico por natureza. Aeroporto Viracopos em
Campinas, Brasil, 2015.

Detalhe de um desenho
da Lia Rossi, onde a técnica usada, por ser mais mais detalhada e realista,
reproduz a textura e relevos da Casa dos Bicos, a qual havia sido apenas
sugerida no desenho maior desenvolvido pelo autor. 

Um desenho
“complementa” o que outro apenas “sugere”. Casa dos Bicos,
Lisboa, Portugal, 2015.

O texto e o desenho
principal fazem menção ao que a protagonista esta fazendo: planejando o passeio
do dia seguinte. 

Entretanto a colagem do
chá “chama” atenção para o ato da protagonista estar bebendo chá, ou
seja, um desenho “promove” uma observação específica sobre o tema do
desenho maior. Praga, República Tcheca, 2013
.

 

Ná pagina esquerda é
feito um detalhamento da serralheria  que
parece ilegível à direita. 

O desenho representa os lendários Corvos protetores
do São Vicente.   

No canto superior
direito, um mapa “revela” a localização do tema desenhado.  Em resumo, um desenho amplia um detalhe do
outro e o mapa mostra a relação do nosso desenho com o desenho urbano de
Lisboa. Portugal, 2013.

Qualquer capa de livro é inevitavelmente um
exercício metalínguisto, pois ocorre uma auto-referenciação, ou seja, os
desenhos da capa do diário gráfico “resumem” o que será mostrado nas
páginas internas. Portugal 2015.

As cores da folha
verdadeira define o tom outonal ao desenho. 
As cores utilizadas para representar a construção estão em harmonia com
as da folha.  Uma imagem
“dialoga” com a outra e faz-nos perguntar: as folhas secas sairam das
árvores desenhadas? Budapeste, Hungria, 2013.

Como parte de uma
oficina ministrada pelo autor, cópias de desenhos de vários croquiseiros foram
distribuidas  entre eles, o objetivo era
criar uma nova composição onde de alguma forma os desenhos
“conversassem” entre si, mesmo que para isto fossem criadas
perspectivas irreais ou proporções incoerentes. 
Torres Vedras, Portuga, 2015.

Uma viagem aérea é
sempre um sonho (ou um pesadelo), aqui embalado pelas aventuras de Cinderela em
busca de seu Príncipe. A colagem da revista de borda “revela”  o que Lia Rossi assiste durante sua viajem de
volta a Curitiba. 
Voo TAP 71,
Lisboa-Galeão, 15 de junho de 2015.


Serve para sugerir,
instruir ou influenciar o leitor

Um desenho que tenta
convencer o leitor a fazer algo, persuadi-lo a pensar diferente, ensina algo ou
contribui para formação de opinião sobre um determinado tema, é uma desenho com
função “apelativa”. O objetivo é influenciar o leitor do diário,
convencê-lo de algo ou dar instruções em tom imperativo.

Frequentemente o
diário gráfico registra as boas decisões tomadas durante a viagem e o desenho
se transforma numa celebração gráfica da decisão. Criam-se desenhos mostrando
um museu e coloca-se o comentário na forma imperativa: “vale a pena
retornar aqui!”.  Por outro lado,
decepções também são registradas e se transformam em tentativas de deixar
“advertências” para o leitor. 
Frequentemente usamos o diário como um arquivo de impressões sobre um
lugar, o qual consultaremos para saber, por exemplo,o nome daquele hotel
“maravilhoso” ou daquele restaurante ruim.  Nestas páginas temos o uso de superlativos
gráficos.
Algumas das perguntas
possíveis:
  • Como eu faço para
    chegar a um determinado lugar?

  • Como eu registro que
    este lugar, comida ou contexto é muito bom ou ruim?
  • Quais os horários de
    funcionamento de um determinado serviço?
  • Como convencer o
    leitor a fazer ou desistir de algo que julgamos importante? 
 

Registro da decepção
que foi planejar a visita ao Museu e aprender que naquele determinado dia ele
estaria fechado. Mensagem do diário
gráfico: lembre-se de na próxima viagem verificar quais dias os Museus ficam abertos, inclusive até mais tarde
ou com desconto! Viena, Austria, 2013.

Alguns dos destinos
exigem a troca de mais de um meio de transporte e vários pontos de
monitoramento e de tomanda de decisão para mudança de rota.   As instruções registradas no diário são
imprescindíveis para mostrar o caminho certo. 
Acima, rota de onibus para Feira da Ladra, Budapeste, Hungria, 2013.

Aviso: evite a comida
vendida no trem; além de caríssima é horrível no sabor. De Viena para Praga,
2013.

O mais típico uso da
função apelativa: fazer publicidade de uma ideia.  Esta página foi usada para divulgar nosso desejo
de trazer o Simpósio Internacional do Urban Sketchers para Paraty, conseguimos!

Curitiba, PR, 2013.

Conclusão

Concluo esta
contribuição dizendo que as possibilidades de expressão poética, documental,
expressiva,  metalinguística e apelativa
são apenas uma das maneiras possíveis de explorar conceitualmente as funções de
um diário gráfico.  Outra coisa que não
podemos perder de vista é que uma composição gráfica pode simultaneamente dar
várias respostas a várias perguntas, portanto, cabe ao leitor escolher o que
ele deseja resgatar de um diário gráfico.
Para que serve um
diário gráfico?
Para navegar
graficamente a vida, pois, como dizia o poeta, isto é preciso.

Epílogo

Abaixo, video resumo de nosso diário gráfico da viagem a Portugal.  Nesta oportunidade participamos do Encontro Internacional de Desenho de Rua em Torres Vedras.  O video é dedicado aos companheiros de viagem e aos que lá encontramos.  Também é dedicado aos demais colegas do grupo Croquis Urbanos Curitiba que ficaram cuidando do nosso grupo. Música de Ana Moura “Águas Passadas”.
A ilustração que aparece num papel colado no minuto 2.01 é de autoria de Daniel Silvestre.